Minha história
Da esteira à mesa do dono
Comecei a trabalhar aos 12 anos numa fábrica de calçados. Hoje ajudo empresários a enxergar com clareza o dinheiro do próprio negócio.
O chão de fábrica
Eu tinha nove anos quando minha mãe começou a trazer papel da fábrica para casa. Era o papel de bucha, aquele que vai dentro do sapato quando tu compra numa loja. Ela sentava comigo e me ensinava a fazer, uma por uma.
Na época eu não entendia. Hoje eu entendo. A gente era pobre, e ela achava que eu nunca ia conseguir fazer uma faculdade. Então o jeito dela de me proteger era garantir que, quando eu entrasse numa fábrica, eu já entrasse com uma profissão. Para não sofrer o que ela sofreu.
Aos 12 anos, eu entrei. Mas não fui fazer bucha. Comecei em pré-fabricados de calçados, meio turno de manhã, porque à tarde eu ia para a escola. Aos 16, com a carteira assinada, passei a trabalhar o dia inteiro. E fui para a esteira.
Quem nunca trabalhou numa esteira não imagina como é. Ela não para. Se tu precisa ir ao banheiro, tem que pedir para alguém tomar o teu lugar. E às vezes ninguém vinha. Tu ficava ali, esperando.
E tinha uma coisa que me incomodava muito. Todo mundo ali tinha uma função. Um colava, outro costurava, outro revisava. E eu? Faltava alguém, colocavam o Mateus. Faltava em outro setor, lá ia o Mateus. Eu olhava em volta e pensava: todo mundo aqui tem uma profissão, menos eu.
Demorei anos para entender que não era porque eu era ruim. Era porque eu cabia em qualquer lugar. Aquilo que eu achava que era falta de profissão era, na verdade, a minha profissão: entender como cada parte funciona e fazer a coisa andar.
Lá pelos 17 para 18 anos, um gerente chegou perto de mim e perguntou: "Mateus, tu estuda?". Eu gelei. Achei que ia ser mandado embora. Respondi que sim, já esperando o pior. Ele disse que ia abrir uma vaga na expedição e que achava que eu era o cara para ela.
Pela primeira vez, eu ia sair da esteira.
Achei que ia ser mais tranquilo. Foi o contrário. Nos dias em que eu não tinha aula na faculdade, eu ficava até as 23h. Era sempre o último a sair. E foi aí que aconteceu uma das coisas mais bonitas que eu guardo da minha vida.
Meu pai saía do serviço dele e ia até a fábrica. Ele nem era funcionário de lá. Chegava de noite, sentava do meu lado e me ajudava a colar etiqueta nas caixas, só para eu conseguir ir para casa mais cedo.
Eu não lembro de quantas caixas a gente colou. Mas lembro dele ali.
O que eu levo disso para quem tem um negócio: ninguém constrói nada sozinho, e quase sempre a gente se enxerga menor do que é. Muito empresário que eu conheço acha que "não sabe nada de finanças", quando na verdade sabe a empresa inteira de cor. Só falta alguém sentar do lado e ajudar a colar as etiquetas.
"Por que eu não posso aprender?"
Uma colega da expedição virou minha amiga. A gente conversava pelos corredores, e um dia ela me disse que ia me indicar para uma vaga numa grande rede de varejo.
Eu fiquei feliz e apavorado ao mesmo tempo. Eu não sabia nem escrever um currículo. Tinha feito um curso de informática anos antes, mas não lembrava de nada, porque nunca tinha usado. Algumas pessoas sentaram comigo e me ajudaram a montar o meu, linha por linha.
Fui chamado para uma entrevista para vendedor interno. Do outro lado da mesa, estava o coordenador do comercial. Ele pediu que eu explicasse como funcionava uma fábrica de calçado. E eu expliquei, do início ao fim, cada etapa da esteira que eu conhecia de cor.
No final, ele olhou para mim e perguntou: "Por que eu deveria te contratar? Tu não sabe nem falar direito". E começou a apontar meus vícios de linguagem, um por um.
Naquela hora eu pensei: perdi. Mas alguma coisa me fez bater na mesa e responder: "E por que tu acha que eu não posso aprender?".
Saí de lá cabisbaixo. Voltei para a fábrica achando que aquele seria o meu futuro.
Dois meses depois, o RH me ligou. Tinham duas vagas para mim: vendedor ou assistente administrativo. O salário era de uns R$ 1.300. Na fábrica, eu já ganhava mais de R$ 2.000.
Eu escolhi ganhar menos. Fui para o administrativo, que me parecia mais seguro para quem não sabia nada. Era a minha aposta para mudar de vida.
Só mais tarde eu soube que aquele coordenador tinha gostado de mim. Ele não viu um vendedor pronto. Viu alguém com vontade de aprender.
O que eu levo disso para quem tem um negócio: às vezes o passo certo parece um passo para trás. Ganhar menos hoje para construir algo maior amanhã é uma decisão que muito empresário precisa tomar, e quase ninguém conta como ela dá medo.
Ninguém nasceu pra morrer endividado.
Ficou com alguma dúvida sobre o dinheiro da tua empresa? Me chama pra uma prosa.
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